A Consagração Não afasta a Tentação

Meu devocional hoje foi em Mateus 4:1-11, uma das passagens mais ricas sobre a vida espiritual e as batalhas do cristão. Ela desmascara uma crença comum e perigosa: a de que a consagração, o jejum e a oração nos livra do ataque espiritual e a tentação.

O contexto desta passagem nos mostra que Jesus, após ter sido batizado e recebido o Espírito Santo, é levado ao deserto e passa quarenta dias e quarenta noites em jejum:

“E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome”.

Perceba que é nesse ponto de vulnerabilidade física: “teve fome”, é que o tentador se aproxima: “E, chegando-se a ele o tentador, disse…” (Mateus 4:3).

É nesse momento que a passagem se mostra reveladora da seguinte verdade: que a disciplina espiritual não elimina a tentação. Ao contrário do que muitos acham, a consagração em oração e jejum não coloca o diabo em fuga. Na verdade, ele parece incomodar o mundo espiritual maligno, atraindo a atenção do inimigo para aquele que busca intimidade com Deus.

O diabo não atacou Jesus antes, mas justamente no ponto mais alto do Seu jejum. A fome!

Aprendo aqui que o propósito primordial dessas disciplinas espirituais não é manter o diabo afastado, mas sim fortalecer aquele que as pratica. O jejum e a oração constroem uma intimidade com Deus uma fortaleza interior, capacitando o crente a permanecer firme e a vencer todas as investidas malignas que certamente irão ataca-lo.

“…para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior…” Efésios 3:16

Outra lição desta passagem que percebo, está na natureza da tentação em si. O tentador nunca chega com uma mentira escandalosa; ele é sempre sutil. No diálogo com Jesus, a tentação é sempre articulada como uma proposta que, à primeira vista, parece razoável, mas que sutilmente vai contra o que Deus disse em Sua Palavra.

  • O diabo tentou fazer Jesus duvidar de Sua identidade (“Se és o Filho de Deus…“).
  • Ele tentou forçar Jesus a agir fora do tempo de Deus (“transforma estas pedras em pães“).
  • Ele tentou deturpar a própria Escritura, citando um Salmo fora do contexto.

Toda tentação é, no fundo, uma tentativa de deturpar a Palavra de Deus. Ela ataca a verdade da palavra, tenta minar a confiança no caráter de Deus e busca desviar o homem do caminho do Senhor.

A resposta de Jesus a cada ataque é o exemplo de vitória para todos nós. Ele não argumentou sobre a lógica da tentação nem lutou com suas próprias argumentações. Ele respondeu com uma única e inegável autoridade: a Palavra de Deus.

Quando o diabo tentou submetê-lo, Jesus respondeu de forma resoluta: “Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás” (Mateus 4:10).

A Palavra é o fundamento da nossa fé e o espelho do caráter de Deus. Assim como Jesus, nossas orações e nossa vida devem estar diretamente alinhadas com a Escritura. A vitória não está em quão bem jejuamos ou oramos, mas em quão bem conhecemos e aplicamos a Palavra. Ao usá-la da forma correta, como fez Jesus, a Bíblia nos garante: “Então o diabo o deixa; e, eis que chegaram os anjos, e o serviam” (Mateus 4:11).

O jejum e a oração nos preparam para a batalha, mas é a Espada do Espírito, a Palavra de Deus, que nos garante a vitória final.

Pr. Nadir E. Heinrich

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