Há uma pergunta que tem me incomodado e espero que a você também: será que ainda estamos entendendo o que Jesus chamou de Reino de Deus? Hoje no meio evangélico, se fala muito sobre bênçãos, vitórias, crescimento, influência, prosperidade, propósito e até conhecimento bíblico. Mas, às vezes, pouco sobre aquilo que Jesus colocou como indispensável: nascer de novo.
Em meu estudo de João 3:3, tirei algumas conclusões que nos traz luz sobre esse assunto. Ali Jesus faz uma das declarações mais sérias de todo o Evangelho: “Em verdade, em verdade te digo: se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus.”
Não pretendo fazer uma exegese exaustiva do texto apenas analisar alguns aspectos do texto grego, para fudamentar o que quero dizer. Uma das expressẽs usada é γεννηθῇ ἄνωθεν (gennēthē anōthen), que pode ser entendida como “nascer de novo” e também “nascer do alto”. Essa dupla ideia é profunda, porque mostra que o novo nascimento não é apenas uma tentativa humana de recomeçar, mas uma obra espiritual que vem de Deus.
Esse versículo foi dito a Nicodemos, um homem religioso, conhecedor da Lei, respeitado entre o povo e mestre em Israel. Isso torna a fala de Jesus ainda mais impactante. Jesus não estava falando com um homem sem religião, sem conhecimento ou sem reputação espiritual. Ele estava falando com alguém que, aos olhos da sociedade religiosa, parecia estar no caminho certo. Mesmo assim, Jesus lhe disse que ele precisava nascer do alto.
Aqui começa o problema que precisamos enxergar: é possível ter religião e ainda não ter vida espiritual. É possível conhecer termos bíblicos, frequentar cultos, defender doutrinas, participar de ministérios e ainda assim não compreender o Reino de Deus. Nicodemos representa o perigo de uma espiritualidade construída sobre estrutura, tradição e aparência, mas que ainda precisa ser atravessada pela vida de Deus.
A palavra γεννηθῇ vem do verbo grego relacionado a “gerar” ou “nascer”. No texto, ela aparece em forma passiva, indicando que esse nascimento não é produzido pelo próprio homem. Ninguém se gera espiritualmente a si mesmo. Ninguém entra no Reino de Deus por força de vontade, por herança familiar, por cargo na igreja ou por desempenho religioso. O novo nascimento é recebido. Ele é obra de Deus no interior do ser humano.
Essa verdade confronta diretamente uma parte da mentalidade evangélica atual. Tenho percebido o evangelho ser pregado como se fosse apenas um caminho para melhorar a vida, resolver problemas, alcançar objetivos ou conquistar estabilidade. É claro que Deus cuida, restaura, consola e sustenta, não estou negando isso. Mas o evangelho não começa no conforto do homem; começa na regeneração do homem, antes de Deus mudar circunstâncias, Ele muda o coração.
Jesus não disse a Nicodemos: “Você precisa melhorar sua religião” também não disse: “Você precisa apenas aprender mais.” Jesus disse: “Você precisa nascer de novo.” Isso significa que o maior problema do ser humano não é apenas falta de informação, falta de disciplina ou falta de oportunidade, o problema é espiritual. O homem natural não consegue ver o Reino de Deus porque não tem, em si mesmo, a vida de Deus para percebê-lo.
A expressão ἄνωθεν (anōthen) aprofunda ainda mais essa verdade. Ela pode significar “de novo”, mas também “do alto”. Nicodemos entendeu de forma literal, como se Jesus estivesse falando de voltar ao ventre materno. Mas Jesus apontava para algo muito maior: um nascimento cuja origem não está na terra, mas em Deus. O Reino de Deus só pode ser visto por quem recebeu vida de Deus.
Isso nos leva a fazer uma avaliação sincera: será que parte dos evangélicos estão tentando viver o cristianismo sem o novo nascimento? Será que estão confundindo movimento religioso com vida espiritual? Será que estão chamando de evangelho aquilo que, na prática, é apenas moralismo, entretenimento, autoajuda ou cultura de igreja?
O texto de João 3:3 vai responder com clareza: sem nascer do alto, ninguém pode ver o Reino de Deus. A frase οὐ δύναται ἰδεῖν significa “não pode ver”. Não é apenas um impedimento, mas uma incapacidade. Sem a ação de Deus o homem não consegue perceber a realidade espiritual do Reino. Ele pode até estar perto das coisas sagradas, mas ainda distante da vida que vem de Deus.
Isso nos mostra por que alguém pode estar dentro da religião e ainda não se render de verdade a Cristo. Pode cantar, ouvir sermões, conhecer histórias bíblicas e ainda assim continuar governado pelo orgulho, pela vaidade, pela cobiça, pela indiferença e pela autossuficiência. Assim podemos ver que novo nascimento não é uma camada religiosa colocada sobre a velha natureza. É uma nova vida implantada por Deus no coração do homem.
Meus irmãos, a essência do evangelho não é o homem tentando parecer melhor as coisas de Deus,a essência do evangelho é Deus dando vida a quem estava morto espiritualmente. É Cristo chamando o pecador não apenas para uma reforma externa, mas para uma transformação profunda. O evangelho não maquia o velho homem, ele anuncia morte e ressurreição, arrependimento e fé, cruz e nova criação.
Desse modo meus irmãos, quando muitos dos evangélicos (não quero generalizar) de hoje perdem a centralidade do novo nascimento, perdem também a essência do evangelho. È isso que estou querendo dizer!
Uma grande pate da igreja moderna fala mais sobre resultados do que sobre arrependimento, mais sobre conquistas do que sobre cruz, mais sobre identidade pública do que sobre vida secreta com Deus. E aos poucos, o Reino de Deus é trocado por uma versão religiosa dos desejos humanos.
Mas não quero ser apenas crítico ou pessimista quero mostrar como João 3:3 também traz esperança, se o problema é que o homem não pode gerar a si mesmo espiritualmente, a resposta é que Deus pode gerar vida nova. O novo nascimento vem do alto. Ele não depende da força do pecador, mas da graça de Deus, isso humilha nosso orgulho, mas também consola o coração quebrantado. Quem reconhece sua pobreza espiritual pode clamar ao Deus que dá vida, precisamos ter fome de vida!!!
A reflexão é pessoal a cada um de nós: “eu apenas tenho religião ou realmente nasci do alto? Minha fé é apenas um conjunto de costumes evangélicos ou é fruto de uma vida regenerada por Deus? Eu vejo o Reino de Deus como realidade central da minha existência ou apenas uso a fé como apoio para os meus próprios projetos?”
Jesus continua dizendo à igreja aquilo que disse a Nicodemos: “É necessário nascer de novo.” Essa é a essência que não podemos perder. Antes de qualquer título, ministério, conhecimento ou aparência espiritual, precisamos da vida que vem de Deus. O evangelho começa quando o homem para de confiar em si mesmo e recebe, pela graça, uma nova vida em Cristo.
A igreja não precisa apenas de mais movimento, precisa de mais novo nascimento, não precisa apenas de mais discurso religioso. Precisa de vidas transformadas pelo alto. Não precisa apenas parecer evangélica, precisa voltar à essência do evangelho: Cristo dando vida nova a pecadores, para que possam ver e viver o Reino de Deus.
Deus abençoe a todos,
Nadir E Heinrich
Veja também